3 de nov. de 2014

Depois de 10 anos, continua a ocupação do Haiti

Mandato da Minustah foi renovado por mais um ano

Reunido em 14 de outubro, o Conselho de Segurança da ONU decidiu “prorrogar o mandato da MINUSTAH (missão da ONU pela estabilização do Haiti) até 15 de outubro de 2015, com intenção de renova-lo posteriormente.”

Ou seja, a ONU decidiu que a ocupação militar do país seguirá, malgrado estarem lá há 10 anos sem estabilizar coisa alguma. A ocupação piorou a vida do povo, introduziu a epidemia de cólera, reprimiu com as tropas manifestações populares e pisoteou a soberania daqueles que, há 210 anos, conquistaram a independência a partir de uma rebelião de escravos negros!

Tropas da ONU estão no Haiti para reprimir o povo

Eleições livres num país ocupado?

O presidente fantoche dos EUA, Michel Martelly, anunciou o adiamento das eleições de senadores e de administrações municipais. Isso levaria à dissolução do Senado, cujo mandato expira em 12 de janeiro de 2015, deixando Martelly com as mãos livres para governar por meio de decretos.

Mas como é possível eleições livres e democráticas debaixo de ocupação militar estrangeira? A própria eleição de Martelly, em 2011, foi uma fraude orquestrada pelos EUA e sustentada pelas tropas da ONU, comandadas pelo Brasil.

Desde então, ele se recusou a realizar eleições para o Senado, provocando desgastes para a ONU. Em meio a uma crise, foi articulado o “Acordo de El Rancho” que permitiria realizar as eleições sem respeitar a Constituição haitiana e cobrindo a ocupação.

Mas diante da forte resistência ao teatro montado pelo imperialismo, os grandes partidos de oposição protestaram e seis senadores, dentre eles Jean Charles Moise, que esteve no Brasil em maio último para receber o título de Cidadão Paulistano, estão bloqueando a aplicação daquele acordo anticonstitucional.

Fora as tropas da ONU! Fora Martelly!

Em 17 de outubro, data do assassinato há 208 anos de Jean Jacques Dessalines, um dirigente da luta pela independência do Haiti, milhares foram às ruas de Porto Príncipe protestando contra Martelly e pela retirada das tropas.

A Policia Nacional do Haiti atacou os manifestantes com gás e atirando para intimidar. O senador Moise, presente na manifestação, chegou a ficar inconsciente em função do gás lacrimogêneo.
No dia 26, data das eleições adiadas, manifestações novamente colocaram os haitianos nas ruas, aos gritos de: Fora Martelly! Fora Minustah!

Barbara Corrales

*texto originalmente publicado em: Jornal O Trabalho ed. 757 www.otrabalho.org.br

6 de out. de 2014

Apelo da Coordenação Haitiana pela retirada das tropas da ONU do Haiti 2004-2014 Dez anos de ocupação não! A MINUSTAH deve partir!

Foi sob esse lema que organizações, parlamentares, personalidades, respondendo ao apelo da Coordenação Haitiana pela Retirada das Tropas da ONU do Haiti, se mobilizaram, de diferentes formas, em primeiro de junho de 2014, em vários países, para denunciar, à sua maneira, essa brutal ocupação que a ONU impõe ao Haiti a mando dos países imperialistas e exigir a retirada imediata e incondicional da Minustah. Essas mobilizações ocorreram no Haiti, no Brasil, nos Estados Unidos, no México, Uruguai, Peru, Argentina, em Sta. Lucia, em Guadalupe, Martinica...
MINUSTAH e sua missão de desestabilização.

Os acontecimentos de 2003-2004 que levaram ao afastamento do Presidente Jean-Bertrand Aristide, eleito em 2000, deram a oportunidade para, uma vez mais, as forças estrangeiras desembarcarem no solo do Haiti.

Em 30 de abril de 2004, o Conselho de Segurança da ONU adotou a resolução 1542 criando a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti, designada sob a sigla MINUSTAH.

Em 9 de julho de 2004, o primeiro ministro de fato, Gérard Latortue, assinou ao lado do responsável da MINUSTAH, representante da ONU, Adama Guindo, em nome do governo haitiano, o acordo e a convenção que concedem todos os privilégios e imunidades aos ocupantes. O artigo 63 do documento intitulado “Acordo entre a Organização das Nações Unidas e o Haiti” estipula: “O presente acordo permanecerá em vigor até a partida do último elemento da MINUSTAH”.

Desde então, o país se encontra submetido a um acordo anticonstitucional e antidemocrático assinado pelo regime ilegítimo de Gérard Latortue. Ao passo que os artigos 138 e 139 da Constituição haitiana de 1987 estipulam: “O presidente da República é o guardião da independência nacional e da integridade do território. Ele negocia e assina todos os tratados, convenções e acordos internacionais e os submete à ratificação da Assembleia Nacional”.

De fato, esse Acordo dando às forças de ocupação da ONU o direito de violar os espaços territoriais da República do Haiti foi assinado pelo primeiro ministro e não pelo presidente da república. E esse acordo nunca foi submetido à Assembleia Nacional. A Constituição haitiana em seu artigo 98-3, alínea 3 inclui entre as atribuições da Assembleia Nacional “Aprovar ou rejeitar os tratados e convenções internacionais”.

Nesse sentido, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) é ilegítima e ilegal não apenas em virtude dos artigos citados da constituição haitiana de 1987. Pior, a MINUSTAH viola igualmente a carta das Nações Unidas, pois, segundo seu artigo primeiro “Os objetivos das Nações Unidas são: manter a paz e a segurança internacional. Desenvolver entre as nações relações amigáveis baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos dos povos e de seu direito de autodeterminação e de tomar todas as outras medidas para consolidar a paz no mundo”.
Na realidade, durante dez anos, a MINUSTAH tem sido objeto de fortes críticas relativas a violações dos direitos humanos, tais como estupros, roubos, sequestros, enforcamentos, corrupção de menores, pedofilia, tráfico de drogas etc. e a propagação da epidemia de cólera no começo do último trimestre de 2010, que já custou a vida de mais de oito mil haitianos.

A propósito, note-se que em dezembro de 2012, as Nações Unidas, através de Ban Ki-moon, lançou um projeto de 2,2 bilhões de dólares, o que constitui um ato de reconhecimento implícito ou oficioso pela ONU da responsabilidade da MINUSTAH na propagação da epidemia do cólera no Haiti. Infelizmente, 21 meses depois, concretamente, não há resultados positivos. Enquanto isso, a ONU gastou mais de 609 milhões para deslocar 7000 soldados para o Haiti entre 2013-2014 no quadro da Missão das Nações Unidas para desestabilizar o Haiti.

De fato, todas as investigações que tem sido realizadas demonstram cientificamente que foram os soldados nepaleses da Minustah que voluntariamente introduziram a epidemia do cólera no Haiti despejando os dejetos de seus sanitários na corrente do maior rio do país, situado no Departamento de Artibonite, em outubro de 2010.

Apesar de tudo, com a cumplicidade desumana do submisso governo haitiano, a ONU se recusa a aceitar a responsabilidade jurídica de ter provocado esta que é agora a pior epidemia de cólera no mundo.

Vale lembrar que, sob pressão da OEA e dos Estados Unidos, o governo haitiano anunciou a realização de eleições municipais e legislativas. Em 15 de setembro último alguns mercenários do congresso americano tentaram enviar uma espécie de convocação ao grupo de seis parlamentares do senado haitiano apegados firmemente aos princípios e ao respeito da constituição do Haiti.

Mas pode haver eleições democráticas em um país ocupado? A retirada da Minustah, símbolo de violação sistemática da constituição de 1987 do Haiti, é a condição sine qua non para que haja verdadeiras eleições democráticas no Haiti.

O povo haitiano jamais aceitou essa força de ocupação. A massa oprimida no Haiti se manifestou repetidas vezes contra a ocupação e continua a demonstrar sua insatisfação.

SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

A solidariedade internacional foi manifestada e prossegue da parte dos povos de diferentes países, principalmente na América Latina e no Caribe.

- Junho de 2008, uma conferencia é realizada em Porto Príncipe;
- Em cinco de novembro de 2010, em São Paulo, Brasil, um encontro continental foi realizado para exigir a retirada imediata das tropas da ONU do Haiti;
- Em 16, 17 e 18 de novembro de 2011 uma conferência caribenha se desenrolou sob o lema “Lutemos juntos por um Haiti Soberano: Fora a Minustah” em Cabo Haitiano (cidade ao norte do país, onde ocorreu a Batalha de Vertiéres, que marcou a vitória da luta pela independência do Haiti, em 1803, NdT);  
- Em 1 de junho de 2012 teve lugar uma jornada continental em Porto Príncipe sob o lema: “Pela retirada imediata da Minustah do Haiti e a plena soberania do povo haitiano”
- A resolução do Senado haitiano, de 28 de março de 2013, exige a saída da Minustah até 28 de maio de 2014;
- De 31 de maio a primeiro de junho de 2013, uma conferência continental pela retirada das tropas em torno do lema “Defender o Haiti é defender a nós mesmos”;
- Em 10 de outubro de 2013, uma delegação foi à sede da ONU em Nova York para submeter aos responsáveis das Nações Unidas as principais reivindicações do povo haitiano, que não são outras que a retirada imediata da suas tropas do Haiti e a indenização pelas vítimas de cólera, o que o governo submisso do Haiti se recusa a fazer diante das instâncias da ONU. 

Apoiado nessa campanha ininterrupta, o combate pela retirada das tropas da ONU, a indenização das vítimas de cólera, a restituição dos valores extorquidos depois da independência deve prosseguir sem trégua. Dez anos de ocupação, NÃO! A Minustah deve ir embora!

Nós, estudantes, trabalhadores, camponeses, organizações sindicais, organizações progressistas do movimento democrático, organizações de mulheres, cidadãos dos bairros populares, mais do que nunca, chamamos uma grande mobilização contra as tropas da ONU no Haiti.

Mobilização em 10 de Outubro de 2014, no momento em que a ONU se reunirá para renovar as tropas da MINUSTAH.

Vamos aproveitar a confusão dos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, sua divisão durante o debate sobre a renovação das tropas da MINUSTAH, realizado em 11 de Setembro, ocasionada pela resistência e a mobilização popular.

Nós pedimos às organizações e personalidades do movimento operário e democrático dos diferentes países, em particular do continente, que façam gestões, que apoiem a resolução do senado haitiano, petições, etc., afim de que os parlamentos e governos não renovem sua tropa na Minustah e para que eles votem contra a sua continuidade.

Viva a liberdade dos povos oprimidos! Viva o Haiti!
Primeiros Signatários:
Coordenação Dessalines (KòD) : THOMAS Jean Dieufaite
Jornal Haïti Liberté
Central de Trabalhadores dos Sindicatos do setor Privado e das Empresas Públicas (CTSP) : JEAN BONALD G. Fatal
Movimento Estudantil pela Mudança (MECHAN) : ALOUIDOR Wilberde
Movimento de Liberdade e Igualdade dos Haitianos, pela Fraternidade (MOLEGHAF) : DOMINI Raisin 
Partido Revolucionário pela Oganização e o Progresso (PROP) : SIMEON Wisly
Grupo haitiano simpatizantes da 4a. Internacional: RIDORE Katia
Grupo de Iniciativa de Professores em Luta (GIEL)
Grenadier 07 : LUCIEN Gymps
Movimento Estudantil pela Libertação do Haiti (MELA) : SAMEDY Simson
Comitê de Ligação de Organizações de Base e Sindicatos (GLOBS) : RAYMOND Davius

14 de ago. de 2014

"não envolvido em paz"

Soldado da ONU involuntariamente revela a verdadeira função das nações unidades: "não envolvido em paz"

8 de ago. de 2014

Haiti serviu como laboratório para a política de UPPs Ocupação contínua abriu caminho para o Exército protagonizar política de segurança pública no Rio

por Marsílea Gombata - Carta capital, SP 

Porto Principe, 07 de agosto de 2014,  Cenários distintos, Rio de Janeiro e Porto Príncipe carregam em comum um histórico de violência urbana, em meio à batalha pela disputa de territórios nas áreas mais favelizadas das duas cidades.

Apesar de os conflitos terem motivações diferentes – enquanto as favelas do Rio são disputadas por narcotraficantes, as de Porto Príncipe são rivalizadas por grupos de tendências políticas opostas – há quem diga que entender a realidade de uma cidade ajudou na busca por soluções dos problemas da outra. A experiência que o Brasil adquiriu no Haiti, defendem especialistas, contribuiu diretamente para o know how que originou em 2008 as chamadas Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs).

A missão no Haiti foi uma chance para o Brasil treinar suas tropas, que sempre reclamaram da falta de investimento nas Forças Armadas. Foi, também, um exemplar laboratório para operações que visam à “garantia da lei e da ordem” nos morros do Rio, uma vez que os 1.200 militares brasileiros estão engajados em uma estratégia de ocupação contínua em áreas antes dominadas por gangues.

Segundo o tenente coronel Carlos Cavalcanti, do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah) iniciou sua ofensiva em Cité Soleil em 2005, sob o comando do general Heleno Pereira e com o novo conceito de ocupação permanente de “pontos fortes” – enclaves localizados no coração da área considerada mais perigosa, e de onde as operações de pacificação partiriam para ampliar o perímetro de segurança. “Os resultados culminaram com a pacificação de Cité Soleil e, posteriormente, de Cité Militaire em 2007. A Polícia Militar do Rio de Janeiro, inclusive, enviou uma comitiva ao Haiti quando essas operações ainda estavam sendo executadas, com o objetivo de coletar as experiências do Exército Brasileiro”, lembra Cavalcanti.

Especialista em defesa e inserção do Brasil do programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Cláudio Silveira afirma que a experiência no Haiti inspirou a política das UPPs, pois “legitima a participação do Exército” nessas operações. “A instalação das UPPs pega o melhor da expertise em relação ao controle de distúrbios urbanos, contra uma ideia de ameaça ao Estado e de constituição de grupos que são quase um Estado paralelo”, observa. “As Forças Armadas também têm participação na chamada ‘garantia da lei e da ordem’. E isso, ao meu ver, é um problema sério que respalda o intervencionismo militar.”

Em maio de 2013, o então governador do estado do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e o primeiro-ministro haitiano, Laurent Lamothe, assinaram um acordo de cooperação entre a PM do Rio e a Polícia Nacional Haitiana (PNH) para a troca de informações sobre a evolução da política de UPPs no Rio, em comparação com os “pontos fortes” nas favelas haitianas. Dois meses mais tarde, uma comissão da PNH viajou ao Rio para conhecer novas UPPs, assim como o treinamento do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque.

O Haiti teve seu Exército desmantelado nos anos 1990. O país já foi ocupado duas vezes pelos Estados Unidos no passado, e hoje luta para reestruturar sua polícia (com cerca de 11 mil homens). Sob a tutela da Minustah, tem em seu país 5.165 militares e 2.466 agentes de polícia estrangeiros para a segurança pública. A missão, que é vista de modo cético por movimentos sociais da região e militantes da esquerda haitiana, esteve envolta em polêmicas. Entre elas, denúncias de abusos sexuais de crianças e suspeitas de transmissão de cólera por soldados nepaleses que compunham o contingente estrangeiro.

O principal propósito da missão, que já custou ao Brasil 2,11 bilhões de reais (sendo 741 milhões de reais reembolsados pela ONU) era projetar a PNH como a principal força de segurança, assessorados pela UNPOL (Polícia da ONU) e pelo componente militar da missão. O objetivo, segundo o capitão Leonardo Sampaio, responsável pela 2ª Cia de Infantaria de Força de Paz, em Cité Soleil, foi conquistado apenas parcialmente. “O policial haitiano ainda não se sente seguro para atuar em determinadas áreas. Eles dizem que se a gente saísse agora, o sistema falharia”.

O Haiti luta contra o tempo para fortalecer suas forças de segurança, já que o cronograma da ONU prevê a retirada gradual até 2016 de todos os militares estrangeiros. Quando o país conseguirá retirar totalmente de cena a UNPOL e o componente militar da Minustah para a PNH andar com as próprias pernas, no entanto, permanece incerto.


De Porto Príncipe
Cenários distintos, Rio de Janeiro e Porto Príncipe carregam em comum um histórico de violência urbana, em meio à batalha pela disputa de territórios nas áreas mais favelizadas das duas cidades.
Apesar de os conflitos terem motivações diferentes – enquanto as favelas do Rio são disputadas por narcotraficantes, as de Porto Príncipe são rivalizadas por grupos de tendências políticas opostas – há quem diga que entender a realidade de uma cidade ajudou na busca por soluções dos problemas da outra. A experiência que o Brasil adquiriu no Haiti, defendem especialistas, contribuiu diretamente para o know how que originou em 2008 as chamadas Unidade de Polícia Pacificadora (UPPs).

A missão no Haiti foi uma chance para o Brasil treinar suas tropas, que sempre reclamaram da falta de investimento nas Forças Armadas. Foi, também, um exemplar laboratório para operações que visam à “garantia da lei e da ordem” nos morros do Rio, uma vez que os 1.200 militares brasileiros estão engajados em uma estratégia de ocupação contínua em áreas antes dominadas por gangues.

Segundo o tenente coronel Carlos Cavalcanti, do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah) iniciou sua ofensiva em Cité Soleil em 2005, sob o comando do general Heleno Pereira e com o novo conceito de ocupação permanente de “pontos fortes” – enclaves localizados no coração da área considerada mais perigosa, e de onde as operações de pacificação partiriam para ampliar o perímetro de segurança. “Os resultados culminaram com a pacificação de Cité Soleil e, posteriormente, de Cité Militaire em 2007. A Polícia Militar do Rio de Janeiro, inclusive, enviou uma comitiva ao Haiti quando essas operações ainda estavam sendo executadas, com o objetivo de coletar as experiências do Exército Brasileiro”, lembra Cavalcanti.

Especialista em defesa e inserção do Brasil do programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Cláudio Silveira afirma que a experiência no Haiti inspirou a política das UPPs, pois “legitima a participação do Exército” nessas operações. “A instalação das UPPs pega o melhor da expertise em relação ao controle de distúrbios urbanos, contra uma ideia de ameaça ao Estado e de constituição de grupos que são quase um Estado paralelo”, observa. “As Forças Armadas também têm participação na chamada ‘garantia da lei e da ordem’. E isso, ao meu ver, é um problema sério que respalda o intervencionismo militar.”

Em maio de 2013, o então governador do estado do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e o primeiro-ministro haitiano, Laurent Lamothe, assinaram um acordo de cooperação entre a PM do Rio e a Polícia Nacional Haitiana (PNH) para a troca de informações sobre a evolução da política de UPPs no Rio, em comparação com os “pontos fortes” nas favelas haitianas. Dois meses mais tarde, uma comissão da PNH viajou ao Rio para conhecer novas UPPs, assim como o treinamento do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque.

O Haiti teve seu Exército desmantelado nos anos 1990. O país já foi ocupado duas vezes pelos Estados Unidos no passado, e hoje luta para reestruturar sua polícia (com cerca de 11 mil homens). Sob a tutela da Minustah, tem em seu país 5.165 militares e 2.466 agentes de polícia estrangeiros para a segurança pública. A missão, que é vista de modo cético por movimentos sociais da região e militantes da esquerda haitiana, esteve envolta em polêmicas. Entre elas, denúncias de abusos sexuais de crianças e suspeitas de transmissão de cólera por soldados nepaleses que compunham o contingente estrangeiro.

O principal propósito da missão, que já custou ao Brasil 2,11 bilhões de reais (sendo 741 milhões de reais reembolsados pela ONU) era projetar a PNH como a principal força de segurança, assessorados pela UNPOL (Polícia da ONU) e pelo componente militar da missão. O objetivo, segundo o capitão Leonardo Sampaio, responsável pela 2ª Cia de Infantaria de Força de Paz, em Cité Soleil, foi conquistado apenas parcialmente. “O policial haitiano ainda não se sente seguro para atuar em determinadas áreas. Eles dizem que se a gente saísse agora, o sistema falharia”.

O Haiti luta contra o tempo para fortalecer suas forças de segurança, já que o cronograma da ONU prevê a retirada gradual até 2016 de todos os militares estrangeiros. Quando o país conseguirá retirar totalmente de cena a UNPOL e o componente militar da Minustah para a PNH andar com as próprias pernas, no entanto, permanece incerto.

MOÇÃO: Pela retirada das tropas brasileiras do Haiti - 10 ANOS BASTA!

Exma. Presidente da Republica, Dilma Roussef
Exmos. Membros do Congresso Nacional
         

Há 10 anos, desde junho de 2004, o comando militar da Missão da ONU de Estabilização do Haiti (Minustah) está nas mãos do Brasil, cujas tropas são também as mais numerosas.

É preciso terminar com a participação nessa operação, repudiada pelo povo haitiano, cujo Senado votou, por unanimidade, o pedido de retirada das tropas.

Nos dirigimos à Presidente Dilma  para que se pronuncie nesse sentido, e aos deputados e senadores do Congresso Nacional para que não renovem e fixem a data do fim da participação imediatamente.

Primeiras Adesões: senador Wellington Dias (PT/PI) , deputado federal Fernando Ferro (PT/PE), deputado estadual Adriano Diogo (PT/SP), vereadora Juliana Cardoso (PT/SP, membro CEN-PT), vereador  Paulo Fiorilo (presidente do PT/SP), Markus Sokol (membro DN PT), Marcelo Buzetto (MST), João B. Gomes (CUT-SP), Erik Bouzan (JPT/SP), Luã Cupollillo (JR), Gegê (CMP), Ramatis Jacinto (Inspir/DR-PT/SP), Barbara Corrales (Comitê Defender o Haiti é Defender a Nos Mesmos)


Emails para
Presidente Dilma Roussef:- gabinetepessoal@presidencia.gov.br, sg@planalto.gov.br;
capadr.decom@camara.gov.br;
asimpre@senado.gov.br
renan.calheiros@senador.gov.br

C/cópia para
comitedefenderhaiti@uol.com.br

27 de mai. de 2014

10 Anos: Basta! Fora as Tropas da MINUSTAH do Haiti - Release das Atividades da Jornada Continental no Brasil

No dia 22 de maio, a Câmara dos Vereadores de São Paulo realizou sessão solene de entrega do título de cidadão paulistano ao senador haitiano Jean Charles Moise.
Juliana Cardoso (PT) e Moise
Iniciativa da vereadora Juliana Cardoso (PT), a sessão solene foi convocada em conjunto pelo Comitê Defender o Haiti é Defender a Nós Mesmos e se constituiu num ato pela Retirada das Tropas da ONU do Haiti, parte da Jornada Continental pelo fim da ocupação militar daquele país.
Em pé Barbara Corrales do Comitê Defender o Haiti é defender a nós mesmos, a esquerda Renato Simões Deputado Federal do PT e Moise no centro. 
Além da vereadora Juliana, compuseram a mesa os deputados do PT Adriano Diogo (estadual) e Renato Simões (federal); os vereadores do PT José Américo Dias, presidente da Câmara e Paulo Fiorilo,  presidente do Diretório Municipal do PT-SP; João B. Gomes, pela CUT; Milton Barbosa pelo Movimento Negro Unificado e Flavio Jorge, pela CONEN; Erik Bouzan, Juventude do PT e Luã Cupollillo da Juventude Revolução; Markus Sokol, membro do Diretório Nacional do PT; Gegê, da Central de Movimentos Populares e Cleiton Gomes, diretor do Sindicato dos professores Municipais de SP;  Antonio Pinto e Catia Silva representaram a Secretaria pela Igualdade Racial da Prefeitura de São Paulo. Uma expressiva delegação de imigrantes haitianos esteve presente.
Adriano Diogo, deputado estadual do PT
 José Américo, que também é membro da Comissão Executiva Nacional do PT, reafirmou que "sou pela retirada das tropas". O Presidente do PT municipal de SP, igualmente, colocou-se a disposição para os encaminhamentos da campanha pela retirada das tropas do Haiti e a vereadora Juliana, que também faz parte da CEN do PT revelou que  “a diplomacia do Brasil no Haiti chegou a questionar essa concessão, mas em conjunto com o Comitê e os movimentos mantivemos essa decisão”. E, provocando uma reação de entusiasmo dos haitianos, acrescentou "estamos com vocês até o fim”.


Nesta que foi a terceira visita ao Brasil do senador haitiano Jean Charles Moise ele também participou de atividades em Brasília nos dia 20 e 21/5. Na Câmara dos Deputados houve Audiência Pública sobre a presença das tropas brasileiras no Haiti, por iniciativa dos deputados federais Fernando Ferro (PT/PE) e Renato Simões (PT/SP). Ferro declarou “a presença militar do Brasil no Haiti preocupa. O governo deve adotar uma postura de transição para a retirada das tropas". O deputado Renato Simões (PT-SP), que requereu a audiência pública, também se manifestou favorável à retirada gradual das tropas brasileiras, como diz a Resolução do Senado haitiano e completou "devemos trazer para o Congresso essa discussão de estabelecer um prazo de retirada das tropas brasileiras”.
 Na Comissão de Direitos Humanos do Senado, Moise reuniu-se com os senadores Ana Rita (PT-ES), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Wellington Dias (PT-PI) que decidiram "pedir que o Brasil lidere os países latino-americanos na retirada", embora ainda sem estabelecer prazo. O senador foi recebido pelo ministro da Defesa Celso Amorim. Também foi decidido constituir uma comissão de senadores para averiguar as condições dos haitianos imigrantes em São Paulo.

Comissão direito Humanos Câmara dos Deputados: Suplicy, Jean Charle Moise (senador Haitiano, Markus sokol (DN-PT), Ana Rita e Wellington Dias
Pronunciamento dos deputados Ferro e Simões no plenário da Câmara pela retirada das tropas do Haiti foram reproduzidos no boletim da Bancada Federal (23/05/2014) e repercutiram na Voz do Brasil.
Deputado Ferro, em discurso no plenário da Câmara dos Deputados.
Em suas intervenções nessas diversas reuniões, o senador esclareceu que o sentido da presença das tropas da ONU no Haiti é atender a interesses que são estranhos ao povo haitiano e aos povos dos países que enviaram tropas. Ao receber o título de cidadão paulistano ele destacou:  "em 2004, as tropas foram enviadas com a promessa de estabilizar o país por seis meses. A situação melhorou? Não, pelo contrário, piorou. Uma resolução do Senado do Haiti, aprovada por unanimidade pede a retirada das tropas até o dia 28 [de maio de 2014], mas não há sinal de que elas sairão. O Haiti não está em guerra com outro país e não está em guerra civil. A luta pela desocupação se insere na união dos povos contra as forças imperialistas. Seria melhor enviar tratores que tanques de guerra. Em nome de uma suposta desordem, a presença das tropas garante a exploração de nossas riquezas naturais pelas oligarquias e pelos monopólios multinacionais. Retiram o direito do povo à  autodeterminação, o direito de ter um país independente e soberano". 
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